Kremlin intensifica segurança de Putin em meio a temores de golpe e atentados

João Siqueira
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Créditos: Imagem/Divulgação

O Kremlin implementou um endurecimento drástico das medidas de segurança em torno do presidente russo, Vladimir Putin, diante de crescentes temores de atentados e possíveis golpes de Estado. As informações, que circulam no cenário político internacional, foram reveladas por um relatório de um serviço de inteligência europeu, amplamente citado por veículos de comunicação como o portal russo de jornalismo investigativo “Important Stories”, a emissora americana CNN e o jornal britânico “Financial Times”. A situação sinaliza uma preocupação elevada com a estabilidade do poder presidencial na Rússia.

Nesse contexto de preocupação, o documento de inteligência europeu classifica o ex-ministro russo da Defesa e de Situações de Emergência e atual secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Serguei Shoigu, como um “potencial fator de desestabilização”. Observadores do cenário russo estão divididos quanto à plausibilidade de um golpe, com alguns vendo o cenário como real, influenciados pelas operações bem-sucedidas dos serviços secretos ucranianos. Outros consideram as informações como parte de uma campanha de desinformação destinada a desestabilizar a elite russa, que já enfrenta tensões crescentes, problemas econômicos e pressão dos órgãos de segurança.

Apesar de ter perdido parte de sua influência anterior, Serguei Shoigu ainda é percebido como um risco potencial ao sistema de poder de Putin, de acordo com Roman Anin, fundador do “Important Stories”. Anin aponta para o surgimento de “tensões crescentes entre os órgãos de segurança” e “conflitos entre clãs” na Rússia, em um cenário onde o papel de Putin como mediador entre as elites estaria enfraquecido. Shoigu, que comandou o Ministério de Situações de Emergência por 12 anos e foi nomeado ministro da Defesa em 2012, antes de ser demitido em 2024 e substituído por Andrei Beloussov, teria construído uma vasta rede de influência e corrupção ao longo dos anos, comparável a uma “omertà”.

Sua queda em desgraça, motivada por fracassos na guerra na Ucrânia, e a perseguição judicial a ex-vice-ministros como Ruslan Talikov, Timur Ivanov, Pavel Popov e Dmitri Bulgakov, gerariam em Shoigu o temor de um destino semelhante. Este receio adiciona uma camada de complexidade às dinâmicas internas do Kremlin, com a possibilidade de Shoigu se tornar uma figura-chave em qualquer futura movimentação de poder, mesmo com sua influência diminuída. A situação reflete uma instabilidade latente dentro das estruturas de segurança e militares russas.

Paralelamente, o serviço de inteligência europeu indica que Vladimir Putin teme um possível atentado cometido por membros da própria elite política russa, potencialmente utilizando drones. Relatos do canal anônimo russo do Telegram VChK-OGPU, por exemplo, apontaram que o Kremlin estaria preocupado com ataques de drones organizados em Moscou, sem controle externo. Essa apreensão foi tão significativa que a tradicional parada militar na Praça Vermelha, no Dia da Vitória, quase foi completamente cancelada devido à avaliação dos serviços de segurança sobre os riscos extremos. A cientista política Ekaterina Schulmann observou que a segurança se tornou a prioridade máxima para Putin, o que o levou a diminuir suas aparições públicas.

Em resposta a esses temores, as medidas de segurança na capital russa foram intensificadas, incluindo interrupções nas comunicações em diversos distritos, posicionamento de sistemas móveis de guerra eletrônica no centro da cidade e um reforço na segurança do Kremlin. Tais ações sublinham a seriedade das preocupações de Putin com sua integridade física e a estabilidade de seu governo. O cientista político Abbas Galjamov reiterou que, para Putin, a segurança pessoal superou as considerações de imagem pública.

Apesar das tensões, a hipótese de Serguei Shoigu liderar um golpe de Estado é vista com ceticismo por alguns especialistas. Mark Galeotti, cientista político britânico e especialista em Rússia, descreve os relatos sobre um complô como “desinformação deliberada”, visando a “estimular a paranoia dentro da elite russa” e não refletindo uma ameaça real, já que Shoigu careceria de autoridade e confiança para tal. Similarmente, Ekaterina Schulmann pontua que as reportagens não indicam uma conspiração liderada por Shoigu. Essa divergência de análises ressalta a complexidade e a opacidade das dinâmicas de poder no Kremlin.

A cientista política e ex-funcionária do Banco Central da Rússia, Alexandra Prokopenko, oferece uma explicação para a ausência de tentativas significativas de golpe, à exceção da rebelião de Yevgeny Prigozhin em 2023. Ela argumenta que as elites governantes não constituem um grupo coeso, mas sim um sistema de “pirâmides” em torno de patronos individuais, cada um ligado à distribuição de recursos. Enquanto os membros desse sistema obtiverem mais de Putin do que obteriam sem ele, não haverá incentivo para um confronto aberto. No entanto, a diminuição de recursos devido à guerra e às sanções já está intensificando a competição entre grupos influentes, o que pode, a longo prazo, enfraquecer a estabilidade da coalizão existente e levar a uma redefinição das regras do jogo.

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